Durante muito tempo, talvez eu tenha pensado que falar sobre fé significava falar sobre igreja, culto, compromisso, doutrina, música, oração e manifestações religiosas.
Mas percebi que, para mim, Deus está em outro lugar.
Quando alguém pergunta se eu acredito que Deus existe, a pergunta parece estranha. Não porque eu tenha uma prova extraordinária para apresentar, nem porque queira convencer alguém. É simplesmente porque Deus faz parte da minha percepção da existência.
Eu me olho no espelho e não preciso perguntar se existo. Eu simplesmente me vejo.
Com Deus acontece algo parecido.
Não preciso de uma experiência sobrenatural para reforçar minha fé. Não preciso de uma explicação sobre Deus para continuar acreditando. As experiências que vivi ao longo da vida — sonhos, acontecimentos inexplicáveis, sensações de presença e histórias familiares marcadas pela fé — fazem parte da minha história, mas não são o fundamento da minha relação com Deus.
Se amanhã encontrássemos uma explicação natural para todas elas, minha fé não desapareceria.
Talvez porque minha fé não tenha começado no sobrenatural.
Ela simplesmente está ali.
Também descobri que não me identifico muito com determinadas formas de religiosidade. Um templo cheio, som alto, muitas pessoas, interações sociais intensas e a expectativa de demonstrar uma emoção que não sinto naturalmente podem me afastar daquele ambiente.
Não necessariamente de Deus.
Talvez eu simplesmente não consiga — ou não queira — transformar minha relação com Deus em uma performance.
Não preciso gritar para Deus me ouvir.
Não preciso demonstrar uma emoção para provar que acredito.
Não preciso transformar minha fé em espetáculo.
Minha relação com Deus é mais silenciosa.
Mais contemplativa.
Mais cotidiana.
É como uma brisa fresca.
Não como uma tempestade.
Mas existe uma pergunta que essa metáfora me faz pensar.
E se estivermos esperando demais pela tempestade?
Imagine um navio atravessando uma grande tempestade. O vento sopra com violência, as ondas se levantam, o céu escurece. Todos precisam procurar abrigo. É necessário proteger-se, fechar as portas, segurar-se e esperar que aquela força passe.
Ninguém permanece no convés esperando sentir a brisa.
A tempestade exige proteção.
Talvez algumas pessoas também tenham aprendido a esperar Deus somente na tempestade.
Esperam o grande acontecimento.
A cura impossível.
O milagre extraordinário.
A experiência intensa.
O arrepio.
O grito.
A manifestação que faz todos perceberem que algo aconteceu.
E talvez, enquanto esperam a tempestade, tenham fechado tanto o coração que já não conseguem perceber a brisa.
Será que o seu coração está protegido demais, esperando uma tempestade, e por isso você não consegue perceber a presença de uma brisa de Deus?
Talvez Deus também esteja no que não faz barulho.
No silêncio depois de uma oração.
Na tranquilidade de uma manhã.
Na consciência de que estamos vivos.
Em uma conversa.
Em uma lembrança.
No cuidado de alguém.
Na capacidade de simplesmente respirar e continuar.
Talvez nem toda presença precise ser anunciada por trovões.
Algumas presenças simplesmente chegam.
E talvez a diferença esteja naquilo que estamos esperando perceber.
Se estamos esperando a tempestade, procuraremos o trovão.
Se estivermos atentos à brisa, talvez percebamos algo que sempre esteve ali.
E existe ainda uma dimensão do autismo nessa história.
Para algumas pessoas autistas, ambientes muito barulhentos, cheios de estímulos e exigências sociais podem ser difíceis. Talvez aquilo que para algumas pessoas representa uma experiência religiosa intensa, para outras represente apenas sobrecarga.
Isso não significa falta de fé.
Talvez signifique apenas que existem diferentes maneiras de estar diante de Deus.
Algumas pessoas encontram Deus no canto coletivo.
Outras, no silêncio.
Algumas encontram Deus em uma igreja cheia.
Outras, em uma caminhada solitária.
Algumas precisam falar.
Outras precisam apenas permanecer.
Nenhuma dessas experiências precisa necessariamente ser superior à outra.
E talvez exista algo ainda mais importante nisso tudo: Deus não precisa ser maior para mim porque minha expressão religiosa é maior.
Se Deus faz parte da própria realidade, então Ele não depende do volume da minha voz, da quantidade de pessoas ao meu redor ou da intensidade da minha manifestação.
Uma brisa não precisa fazer barulho para ser percebida.
Ela apenas passa.
E quem está atento sente.
Talvez seja assim que eu experimente minha fé.
Não como uma tempestade que precisa ser vista por todos.
Mas como uma presença tranquila que, de alguma maneira, sempre esteve ali.

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